MARINA PINHONI, JOANA CUNHA E IRAN ALVES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Uma empresa desconhecida localizada no centro do Rio de Janeiro recebeu ao menos R$ 126,6 milhões do Master, em transações classificadas pelo banco de Daniel Vorcaro como pagamentos por prestação de serviços. O sócio-administrador da Midias Promotora LTDA, Gilson Bahia Vasconcelos, foi beneficiário do auxílio emergencial do governo na pandemia.
O valor supera, por exemplo, o montante de R$ 80 milhões declarado como pago ao escritório de Viviane Barci, mulher do ministro Alexandre de Moraes.
Bahia Vasconcelos enfrenta processo em que é acusado de estelionato. Ele é apontado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro como um dos líderes de um suposto esquema de fraude contra aposentados e pensionistas do INSS -a maioria idosos.
Segundo a denúncia, a organização criminosa acessava dados das vítimas por meio de um programa de computador chamado Vanguard. Depois, funcionários de uma equipe de call center ligavam para as vítimas oferecendo cartões de desconto em lojas, mas alegavam que para dar o benefício precisavam de um encontro presencial para fazer a foto do cartão.
Neste momento, sem saber, a vítima cedia sua imagem para reconhecimento facial, que era usado para firmar contratos de empréstimo consignado com desconto em folha de pagamento, e o dinheiro em seguida era desviado.
Ainda conforme o Ministério Público, o esquema contava com uma equipe de dezenas de funcionários, que para atrair mais vítimas eram estimulados com bonificações. Ganhavam prêmios como serviços de beleza, manicure, bronzeamento e cílios postiços.
A reportagem tentou contato com Bahia Vasconcelos em números de telefone registrados em documentos, mas não foi atendida. Seu advogado diz que ele nega participação na firma envolvida no caso do estelionato do call center (leia mais abaixo).
A acusação de estelionato no processo contra ele está ligada a outra empresa e não faz nenhuma menção à Midias Promotora LTDA, que recebeu os pagamentos do Master.
A reportagem procurou a assessoria de imprensa de Daniel Vorcaro questionando quais foram os serviços prestados por R$ 126 milhões ao Master pela Midias, mas não obteve a resposta.
A assessoria de Vorcaro também não respondeu se o compliance do Master identificou problemas no histórico do prestador de serviços.
As cifras em torno da Midias não condizem com os dados registrados em documentos sobre Bahia Vasconcelos. A empresa, que tem capital social de R$ 1 milhão, foi aberta em 2020, mesmo ano em que ele recebeu R$ 3.000 de auxílio emergencial do governo, em cinco parcelas mensais de R$ 600.
O endereço que Bahia Vasconcelos declara como residência é de um sobrado simples no bairro de Realengo, na zona oeste do Rio de Janeiro, e não há registro de propriedade de imóveis em nome dele no estado.
Hoje, a Midias tem uma dívida ativa de R$ 12,5 milhões com a União pelo não pagamento de impostos -a maior parte dos valores foi protestada. Sua atividade principal é correspondente de instituições financeiras.
Bahia Vasconcelos também é administrador de outra firma chamada Midias Promotora LTDA – SCP1, aberta em 2021. O modelo de SCP (Sociedade em Conta de Participação) é uma estrutura com menor regulação que permite a entrada de sócios em posição oculta.
O montante pago à Midias foi o terceiro maior repasse feito pelo banco de Daniel Vorcaro por serviços prestados entre 2022 e 2025, atrás apenas de duas empresas -uma ligada a Daniel Monteiro, apontado como arquiteto jurídico do banco, e outra ao ex-sócio Augusto Lima, segundo levantamento da reportagem a partir de dados enviados pela Receita Federal à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Crime Organizado.
Em 2024, ano em que a Midias recebeu a maior parte dos pagamentos do Master (R$ 96 milhões), Bahia Vasconcelos ficou preso preventivamente durante quase um mês pelo processo do golpe do call center em aposentados, no qual é réu por estelionato e participação em organização criminosa.
Além deste caso, ele é apontado em outras duas ações movidas por pessoas que dizem ter sido vítimas de fraudes com empréstimos consignados.
Em uma das ações, uma pensionista da Marinha relata que foi procurada com a oferta de um investimento, que seria feito com recursos obtidos por meio de um crédito consignado. À Justiça, ela afirma que, após receber o empréstimo de aproximadamente R$ 75 mil em dois bancos, depositou cerca de R$ 47 mil na conta de Bahia Vasconcelos, mas não recebeu de volta os valores com os rendimentos prometidos.
Consta no processo o contrato assinado em janeiro de 2020 por Bahia Vasconcelos e reconhecido em cartório com o comprometimento de pagamento. A transação foi acordada por meio da empresa MEI que ele tinha, atualmente inapta no cadastro da Receita por omissão de declarações. A Justiça chegou a determinar o bloqueio de cerca de R$ 122 mil da conta de Vasconcelos neste processo, e ele não foi encontrado nas tentativas de intimação para responder ao caso.
Na outra ação, de um militar da Marinha, o autor diz ter sido alvo de um esquema em 2022, no qual aponta Bahia Vasconcelos como um dos participantes, que teria se apresentado como gerente de uma empresa que realizou empréstimos sem consentimento após prometer uma compra de dívida. Bahia Vasconcelos foi excluído do processo por questão de competência da Justiça Federal.
Procurado pela reportagem, o advogado de Bahia Vasconcelos afirmou, em nota, que ele não integra o quadro societário da empresa envolvida no caso do call-center que o levou à prisão. Diz também que ele teve a liberdade concedida e está cumprindo medidas cautelares corretamente há quase dois anos.
“O processo sequer teve audiência marcada, ou seja, ainda nem foi submetido ao Poder Judiciário, sendo, portanto, prematura qualquer conclusão que seja diversa do estado de inocência do senhor Gilson”, disse o advogado em nota.
Sobre a Midias Promotora LTDA, ele afirma que todas as movimentações financeiras “são realizadas dentro da legalidade, de acordo com seu objetivo empresarial e devidamente reportadas aos órgãos competentes, conforme as normas de transparência da Receita Federal”.
“A companhia reitera seu compromisso com a integridade e permanece à disposição para eventuais esclarecimentos técnicos”, completa a nota.
Leia Também: Para ‘ficar mais ágil’, Nike anuncia corte de 1.400 postos de trabalho
