Insumos pressionados e mudança no mix desafiam as margens do setor
A virada de 2026 coloca o agronegócio brasileiro diante de uma encruzilhada. De um lado, o mercado de insumos, fertilizantes, defensivos e bioinsumos, segue em expansão, impulsionado por recordes nas exportações e crescimento robusto do consumo interno. Do outro, o setor sucroenergético enfrenta desafios estruturais, com protagonistas tradicionais em dificuldades e um redesenho da estratégia produtiva das usinas, que agora apostam mais no etanol do que no açúcar. O cenário revela que, mais do que nunca, preços globais de commodities, custo de insumos e dinâmica produtiva caminham juntos rumo a 2026, com impactos diretos sobre custos, competitividade e sustentabilidade da cadeia.
Dados recentes mostram que a indústria brasileira de insumos agrícolas bateu recordes de comércio exterior em 2025, com importações somando 45,5 milhões de toneladas em 2025 e exportações em alta, num patamar não visto há mais de uma década. O desempenho reflete tanto o aumento da demanda interna quanto a atração de mercados externos por defensivos químicos e bioinsumos produzidos no Brasil. No início de 2026, contudo, o mercado apresenta contrastes: enquanto os fertilizantes pressionam os preços para cima, os defensivos mantêm relativa estabilidade, em meio a modestas oscilações cambiais que ainda não geraram choques profundos na oferta global de materiais agrícolas.
Para o executivo Márcio Peixoto, experiente e reconhecido por sua leitura estratégica do agronegócio, com passagens por grandes players como Usina Coruripe e Grupo Farias, esse cenário de insumos “é uma faca de dois gumes”. “Fertilizantes mais caros pressionam o custo de produção da cana e, por extensão, dos etanóis e açúcares, mas a melhora na disponibilidade de defensivos e bioinsumos ajuda a reduzir riscos de perdas por pragas e doenças”, afirma. “O equilíbrio entre custo e produtividade será essencial em 2026 para manter margens diante da volatilidade dos mercados internacionais.”
No setor sucroenergético, as primeiras projeções para a safra 2026/27 mostram uma mudança clara de prioridades. A análise de consultorias especializadas indica que a moagem da cana deve alcançar cerca de 629 milhões de toneladas, com geração estimada de 40 milhões de toneladas de açúcar, 20 bilhões de litros de etanol hidratado e 14 bilhões de litros de etanol anidro. Diferentemente de ciclos anteriores, o etanol ocupa posição de protagonismo: o preço do hidratado tem superado o do açúcar em cerca de 30%, um diferencial historicamente alto que leva usinas a priorizarem combustíveis renováveis na distribuição do mix produtivo.
O movimento ganha respaldo em projeções de mercado de créditos de descarbonização (CBIOs), que apontam para uma potencial geração de mais de 45 milhões de créditos em 2026, impulsionada por crescimento na demanda de etanol e biodiesel. Isso sugere que, se confirmadas as condições de produção, o segmento de bioenergia poderá fortalecer sua atratividade financeira e ambiental nos próximos anos.
Ainda assim, nem todas as notícias são de otimismo. A maior joint venture do setor, a Raízen, enfrenta uma crise financeira aguda, com prejuízos bilionários e dívida elevada, forçando a discussão sobre recapitalização e reestruturação de ativos. Tanto Shell quanto parceiros consideram injeções de capital para evitar a fragmentação da operação, fato que vem sendo observado com atenção pelo mercado e pelo governo brasileiro.
Peixoto observa que “a adversidade da Raízen é um sinal de alerta para todo o setor”. “Quando grandes players enfrentam dificuldades financeiras, isso reflete vulnerabilidades sistêmicas: custos de capital altos, condições climáticas adversas e volatilidade de preços que podem corroer margens rapidamente. A resposta precisa ser estratégica, integrando gestão de riscos, inovação tecnológica e alinhamento às demandas por combustíveis mais limpos.”

Márcio Peixoto
Nesse ambiente, insumos agrícolas e o setor sucroenergético estão, de fato, interligados como nunca. A próxima safra e as decisões de investimento em 2026 serão determinantes para saber se o Brasil consegue manter sua competitividade global – tanto como fornecedor de materiais agrícolas essenciais quanto como um dos maiores produtores mundiais de açúcar e etanol.
