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Empreendedorismo feminino sem romantização: a vida real por trás dos negócios

Por Andressa Gnann

Eu vejo o empreendedorismo sendo romantizado todos os dias. Promessas surreais circulam na internet como se fosse possível ganhar muito dinheiro em pouco tempo, trabalhando pouco, de qualquer lugar, vivendo uma vida leve e perfeita. “Faça um milhão em sete dias”, “trabalhe da praia”, “tenha liberdade total”. Parece simples. Parece fácil. Mas não é assim que funciona na vida real.

Quem vive o empreendedorismo de verdade sabe que por trás de qualquer resultado existe muito trabalho, dedicação e esforço. Não existe dinheiro fácil. Não existe crescimento sem desgaste. Por trás do famoso “seis em sete”, há muito trabalho. Por trás do “trabalhar da praia”, tem trabalho. E, muitas vezes, tem excesso de trabalho.

Essa romantização cria uma expectativa falsa. Faz parecer que empreender é fácil, quando, na prática, é desafiador, cansativo e, em muitos momentos, exaustivo. E quando a mulher se vê vivendo a realidade, ela passa a achar que está errando, quando, na verdade, está apenas vivendo o que não aparece nos discursos da internet.

Em vários momentos da minha trajetória, eu cheguei a pensar que, se trabalhasse oito horas por dia em um regime CLT ou tivesse feito um concurso público, eu conseguiria voltar para casa e descansar. Deixar os problemas no trabalho. Mas no empreendedorismo isso não existe. O problema vai junto com você. A responsabilidade não fica no escritório.

No empreendedorismo, a gente troca o pneu do carro com ele andando. Resolve enquanto tudo está em movimento e as vezes a gente não tem tempo nem pra chorar. Eu cheguei à exaustão física, emocional e mental pelo excesso de trabalho e pela soma de responsabilidades. Eu não tinha a opção de parar. Eu não tinha nem o direito de ficar doente.

A rotina da empreendedora é intensa. Além de cumprir prazos, atender clientes e entregar produtos ou serviços, ela precisa cuidar do marketing, das vendas, da administração, da equipe e de tudo o que sustenta o negócio. E isso é só a parte profissional. Porque, na prática, a mulher continua sendo a principal responsável pela casa, pelos filhos e, muitas vezes, por familiares.

Existe ainda algo muito invisível: quando a mulher empreende de casa, o trabalho dela é desvalorizado. “Ah, mas você está em casa.” Como se estar em casa fosse sinônimo de não trabalhar. Como se empreender fosse ter tempo sobrando. As pessoas acham que a empreendedora pode tudo porque “faz o próprio horário”. O que ninguém vê é que, enquanto todos descansam no fim do dia, ela vai trabalhar à noite ou de madrugada para
compensar tudo o que precisou parar durante o dia.

Existe, sim, uma suposta liberdade e flexibilidade. Mas existe também o outro lado: a mulher que trabalha duplicado, triplicado, quadruplicado para dar conta de tudo. A empreendedora não vive de desculpas, afinal, ela não pode simplesmente parar. Se ela para, tudo para. Eu trabalhei no dia do parto da minha filha. Ainda na maternidade, eu já estava trabalhando pelo celular. Quando cheguei em casa, a primeira coisa que fiz foi ir para o
computador, porque eu tinha cliente para responder e prazo para cumprir. Eu tinha responsabilidades e, naquele momento, não tinha como compartilhar.

Foi exatamente essa realidade que me fez estudar ainda mais. Eu precisei aprender sobre gestão de negócios, gestão de pessoas, gestão financeira, marketing e vendas. Quando sobrava um pouco, eu investia em estudo. Muitas vezes, tirei do básico para investir em conhecimento, porque eu precisava sair de um ciclo em que eu não conseguia mais respirar.

Com o tempo, as empresas cresceram, vieram as contratações e a estruturação. Isso
trouxe um pouco mais de liberdade, porém, vieram novos desafios. Mas essa liberdade não existe no início. No empreendedorismo real, nem sempre dá para sair contratando logo no início.

E é importante dizer: empreender não é para qualquer um. Quem precisa de previsibilidade, quem não lida bem com instabilidade, talvez não deva empreender mesmo. O empreendedorismo pode ser um sonho ou um pesadelo, dependendo do perfil. O que não pode é empreender baseado em promessas irreais da internet ou em
comparação com vidas que não mostram o bastidor. O empreendedorismo nasce de dentro. Da vontade de fazer mais, de construir algo, de defender um projeto ou um negócio com unhas e dentes. E nos dias de cansaço extremo, é isso que sustenta.

Se o empreendedorismo for a sua única alternativa de independência financeira, vá. Empreenda. Mas vá consciente de que a realidade não é o que é mostrado na internet. Existe muito mais desafio do que glamour.
Empreender é suportar o peso da responsabilidade que quase ninguém quer assumir.

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