Da plenária em Nova Iorque ao campo real: igualdade não é discurso, é execução. E o mundo ainda falha nisso.
No dia 9 de março de 2026, na sede das Nações Unidas em Nova Iorque, a abertura da 70ª Sessão da Comissão sobre o Status da Mulher (CSW70) reuniu líderes mundiais, ativistas e vozes de referência para reafirmar um compromisso: os direitos das mulheres, meninas e das indígenas não são negociáveis.
Tive a honra de estar presente na plenária da ONU, compondo a Delegação Brasileira, e testemunhei de perto cada palavra que ecoou naquele espaço histórico. Não foi apenas uma cerimônia: foi um choque de realidade que transformou minha percepção e me fez assumir um compromisso perene e inegociável — lutar em defesa das mulheres, meninas e das indígenas, conclamando também os homens a se unirem nessa batalha. Não se trata de uma luta que podemos travar sozinhas. E, sobretudo, não é uma luta em que podemos tombar derrotados .
Vozes que ecoaram na ONU
- António Guterres, Secretário-Geral da ONU: lembrou que igualdade não se conquista apenas com leis, mas com sistemas de justiça que funcionem na prática. Denunciou o patriarcado como estrutura de poder que resiste e reagiu com firmeza: “Vocês são revolucionárias. Lutem contra o silêncio. Quero ouvir a verdade de vocês.”
- Sima Bahous, Diretora Executiva da ONU Mulheres: alertou para uma nova onda de ataques contra os direitos das mulheres, inclusive no ambiente digital, e convocou todas as gerações a se erguerem ainda mais contra retrocessos.
- Courtenay Rattray, Chefe de Gabinete da ONU: destacou que os avanços foram fruto da coragem de mulheres que não aceitaram barreiras, mas reconheceu que o acesso à justiça continua desigual e marcado por leis discriminatórias.
- Annalena Baerbock, Presidente da Assembleia Geral da ONU: reforçou que quando meninas estudam, economias crescem; quando mulheres participam de acordos de paz, eles duram mais. A luta não pode parar até que haja igualdade plena.
- Malala Yousafzai, Prêmio Nobel da Paz: emocionou ao dizer estar com o coração partido diante do sofrimento de crianças em Gaza, Irã e outros conflitos. Denunciou as restrições brutais às mulheres no Afeganistão e fez um apelo histórico: “Isso não é cultura, nem religião. É apartheid de gênero.”
- Anne Hathaway, atriz e embaixadora da ONU Mulheres: lembrou que vivemos um “momento estranho e espinhoso”, mas homenageou mulheres que escolheram a ação em um mundo que espera o silêncio.
- Michelle Williams, cantora e vencedora do Grammy: encerrou com música, trazendo emoção e reforçando o espírito de resistência.
- Márcia Lopes, Ministra das Mulheres do Brasil: liderou a comitiva brasileira. Com firmeza, denunciou os altos índices de feminicídio no país — quatro por dia — e afirmou que a violência não pode ser naturalizada. Defendeu o combate à violência digital e destacou que “não há democracia plena, desenvolvimento sustentável ou justiça social sem igualdade de gênero, raça e etnia”.
- Reafirmou a reconstrução das políticas para mulheres no Brasil e o Pacto Nacional pelo Enfrentamento ao Feminicídio.
- Articulou com países da América Latina para aprovar, pela primeira vez na história, as conclusões da CSW70 por votação e não por consenso — uma vitória inédita na ONU.
- Participou de painéis sobre financiamento sustentável para igualdade de gênero e sobre a incorporação da perspectiva do cuidado no orçamento público.
- Reafirmou o apoio do governo brasileiro à candidatura de Michelle Bachelet à Secretária-Geral da ONU.
Justiça não pode ser seletiva
O fio condutor de todos os discursos na ONU foi claro: a justiça não pode ser seletiva. Não podemos defender a dignidade das crianças em um lugar e ignorá-las em outro. Não podemos aceitar que mulheres sejam silenciadas, violentadas ou excluídas da vida pública.
E aqui é preciso dizer com todas as letras: mulheres, meninas e as indígenas também estão entre as mais vulneráveis, vítimas de violência física, psicológica e institucional, muitas vezes invisibilizadas. A luta por justiça só será verdadeira quando incluir todas — sem distinção de origem, cor, etnia ou território.
A violência contra mulheres e meninas é uma chaga mundial. Ela se manifesta nas guerras, nas leis discriminatórias, nas agressões dentro de casa, nas restrições culturais impostas à força. Mas também se manifesta de forma silenciosa, quando uma mulher tenta destruir outra — o wollying, essa prática cruel de “puxar o tapete” debaixo dos pés de outra mulher. Sobre o tema, lançamos o Livro Mulheres no Combate ao Wollying, do Instituto Quais de Mim.
Um chamado urgente
Este artigo não é apenas um mero registro da abertura da CSW70. É um grito de indignação. A violência contra mulheres e meninas — inclusive indígenas — é a chaga mais vergonhosa da humanidade. Ela se manifesta nas guerras, nas leis discriminatórias, nas agressões dentro de casa, nas restrições culturais impostas à força, e até na violência silenciosa entre mulheres.
Ao deixar a plenária da ONU, trouxe comigo uma certeza: não há neutralidade possível. O silêncio é cumplicidade. Cada ato de violência contra uma mulher, menina e uma indígena é uma ferida aberta na humanidade.
É hora de agir, de transformar indignação em ação. Chegou o momento de dizer basta com toda a força da nossa voz. Homens e mulheres, juntos, precisam se levantar e lutar. Não podemos tombar derrotados pactuados na omissão. Não podemos aceitar retrocessos.
O compromisso que assumo é perene: minha voz não vai se calar até que essa chaga seja arrancada pela raiz e a justiça seja plena para todas.
