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NegóciosCrise na Venezuela expõe limite ético: nenhuma ideologia justifica o sofrimento coletivo

Crise na Venezuela expõe limite ético: nenhuma ideologia justifica o sofrimento coletivo

Escassez, migração forçada e repressão colocam a crise venezuelana além do debate político e reacendem discussões sobre dignidade humana e responsabilidade moral.

Para o rabino Rav Sany, a realidade vivida hoje pela população venezuelana não pode ser compreendida apenas a partir de disputas políticas ou alinhamentos ideológicos. Em texto encaminhado à redação, o líder religioso afirma que, quando um povo inteiro passa a viver sob escassez, medo e incerteza, o debate deixa o campo da geopolítica e entra no terreno da responsabilidade hisumana.

Segundo Rav Sany, milhões de venezuelanos convivem atualmente com a perda do que ele define como o básico para uma vida digna: segurança, previsibilidade, liberdade e esperança. Ele destaca que a escassez de alimentos e medicamentos, somada à insegurança cotidiana, compromete não apenas a sobrevivência física, mas também a estabilidade emocional e social da população.

Na avaliação do Rabino, o fluxo contínuo de famílias que deixam o país evidencia um movimento que não pode ser interpretado como escolha econômica ou ideológica. “Trata-se de um deslocamento motivado por sobrevivência”, sustenta, apontando que esse êxodo silencioso revela uma fratura profunda não apenas nas estruturas de poder, mas na proteção da dignidade humana.

Rav Sany observa que governos mudam e narrativas políticas se alternam, mas o sofrimento humano permanece. Para ele, essa permanência exige uma resposta ética que não pode ser relativizada por discursos ou sistemas de poder.

O líder religioso também aborda o papel do regime de Nicolás Maduro ao longo dos anos. Segundo Rav Sany, o governo venezuelano optou por alianças com países e grupos que deslegitimam o direito de existência do Estado de Israel e que, em diversos casos, toleram ou apoiam práticas associadas ao terrorismo e ao antissemitismo. Para o Rabino, esse alinhamento não se restringe à geopolítica, mas revela uma visão de mundo que relativiza valores fundamentais como a vida, a liberdade religiosa e a dignidade humana.

Em sua análise, Rav Sany afirma que onde o ódio é normalizado e o terror é justificado, o sofrimento dos povos — internos e externos — torna-se inevitável. Ele avalia que esse ambiente contribui para o silenciamento, o medo e a repressão, elementos que aprofundam a crise humanitária.

Ao recorrer à tradição judaica, Rav Sany fundamenta sua reflexão no conceito da Torá conhecido como Betzelem Elokim, que afirma que todo ser humano é criado à imagem divina. Segundo ele, esse princípio estabelece que a dignidade humana não é concedida por governos nem retirada por ideologias, sendo inerente à própria condição humana.

Na visão do Rabino, a fé judaica ensina que a justiça começa quando se recusa a normalizar a dor do outro. “Onde há sofrimento, há um chamado à consciência”, afirma. Ele acrescenta que essa postura não se trata de neutralidade política, mas de responsabilidade moral diante da vida humana.

O rabino também destaca que a liberdade não pertence a um espectro político específico, mas constitui um valor humano essencial. Para ele, onde a liberdade é restringida, a dignidade é ferida, e onde a dignidade é ferida, a consciência não pode se acomodar.

Sobre as recentes manifestações populares na Venezuela, o líder religioso avalia que as imagens de multidões ocupando as ruas em massa vão além de um gesto político. Segundo ele, representam um sinal humano profundo de reafirmação de existência, voz e desejo de vida, funcionando como um clamor coletivo por dignidade.

Na avaliação do rabino Rav Sany, a crise venezuelana deve ser compreendida como um alerta do nosso tempo. Para ele, normalizar o sofrimento coletivo tem um custo humano elevado, e o silêncio prolongado diante dessa realidade também comunica.

Segundo o líder religioso, a questão central não é sobre governos ou ideologias, mas sobre pessoas. Em sua reflexão final, Rav Sany afirma que enquanto houver um povo sofrendo, a consciência — se quiser permanecer fiel à dignidade humana — não pode se calar. Ele encerra expressando sua esperança, em oração, de que tempos de paz se apressem.


Texto produzido a partir de material encaminhado à redação pelo rabino Rav Sany.


PODCAST

1. De que forma o sofrimento humano na Venezuela transcende as disputas geopolíticas atuais?
2. Como o conceito de dignidade divina desafia a normalização da crise e repressão?
3. Por que a migração e as manifestações representam clamores existenciais além das ideologias?

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