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Cenário global de 2026 impõe uma nova realidade para o investidor e o empreendedor brasileiro

Empresas que decidem cruzar fronteira para o EUA precisam apostar em estrutura sustentável, alerta especialistas

Com a entrada em vigor das recentes alterações na tributação de dividendos e a crescente volatilidade das políticas econômicas, a estratégia de manter todos os ativos, a residência e os negócios sob uma única jurisdição deixou de ser apenas uma vantagem com risco razoavelmente controlado: tornou-se uma vulnerabilidade. Movimentos de saída fiscal e diversificação de ativos para evitar decisões sob pressão já começam a acontecer. A internacionalização, quando conduzida com método, transforma a urgência em uma estrutura de crescimento sustentável.

Para o economista Marco Afonso, da UFMG, esse fenômeno reflete uma busca por proteção institucional que vai além do câmbio. “O investidor brasileiro amadureceu. Ele entendeu que a diversificação geográfica não é apenas uma aposta no dólar, mas uma blindagem contra a instabilidade das regras do jogo doméstico. Quando a tributação sobre dividendos muda ou a política fiscal oscila, o capital busca portos seguros onde a previsibilidade jurídica seja a norma, e não a exceção”, explica o docente.

Os números corroboram essa tendência. Na última década, o investimento brasileiro nos EUA cresceu 52%, superando US$ 21 bilhões, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Mais recentemente, no primeiro semestre de 2025, o mercado financeiro brasileiro atingiu a marca histórica de R$ 7,9 trilhões em investimentos de pessoas físicas, segundo os dados apurados e divulgados pela Anbima Data.

Na análise do economista e CEO da escola de negócios Imigrante Rico, Tiago Prado, esse capital acumulado no Brasil está servindo de “mola propulsora” para a expansão direta nos Estados Unidos. “Os EUA são um país que premia a previsibilidade acima de tudo. Aqui, o processo vence o improviso em todas as esferas. O empresário que prospera não é necessariamente o mais ‘criativo’ no sentido brasileiro da palavra, mas aquele que cumpre prazos, documenta cada etapa, mantém uma organização financeira rígida e entrega exatamente o que prometeu”, diz.

Tiago Prado, economista e CEO da escola de negócios Imigrante Rico | Crédito: Bernardo Coelho

Ele mais: “Quando o brasileiro consegue aliar sua disciplina a esse talento natural para resolver problemas, ele avança muito mais rápido que o nativo. Essa migração de capital que vemos nos dados não é apenas uma fuga de capital; é uma busca estratégica por ambientes onde as regras são claras e a volatilidade não consome o lucro antes mesmo de ele ser reinvestido”, afirma Prado.

A hora de internacionalizar

O fluxo de empresas brasileiras cruzando a fronteira via franquias ou expansão direta é outro pilar desse movimento. O economista da Unicamp, Fernando Sarti, ressalta que o mercado americano não aceita amadorismo, mas oferece escalas globais para quem se adapta.

“A internacionalização é saudável quando visa o ganho de competitividade e o acesso a cadeias globais de valor. O mercado americano é aberto, mas é extremamente punitivo com a ineficiência. O empresário brasileiro que deseja ter sucesso nos EUA precisa substituir o ‘jeitinho’ por métricas de desempenho e inovação. Quem entende essa lógica não apenas sobrevive, mas escala de forma que o mercado brasileiro dificilmente permitiria”, explica Sarti.

Complementando essa visão, Tiago Prado, que soma mais de 18 anos de empreendedorismo nos EUA, identifica três pilares fundamentais para quem quer converter investimento em lucro real: adaptabilidade inteligente, imersão cultural acelerada e execução de excelência.

“Ser flexível não significa improvisar; significa aprender as regras do jogo e aplicá-las com velocidade. Ser disciplinado não significa ser engessado; significa criar rotinas que sustentem o crescimento. O brasileiro que dá certo na América é aquele que domina as leis, o atendimento e a liderança local, combinando isso com uma execução consistente. É essa consistência que nos coloca em vantagem competitiva em setores como construção, limpeza, food service e transporte, onde a demanda é altíssima, mas a oferta qualificada é escassa”, pontua o mentor.

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