Quando o cargo vai embora, mas a pose fica!
Frequentar Alphaville com alguma regularidade é um exercício sociológico interessante. Não pelo urbanismo, nem pelos prédios espelhados, mas pelo comportamento. Alphaville não é um bairro. É um ecossistema. Um ambiente onde a performance costuma andar alguns passos à frente da entrega, e onde, a cada dez cafezinhos, nove vêm acompanhados de alguém tentando te vender alguma coisa.
Não é força de expressão. É padrão.
Você senta para tomar um café e, em minutos, surge alguém com uma história grandiosa, um discurso treinado e uma autoridade autodeclarada. Geralmente começa com uma frase do tipo “eu trabalhei com…”, “sou próximo de…”, “aprendi com…”. A autoridade nunca é própria. É sempre por osmose. O sujeito não fez, mas esbarrou em quem fez. Não construiu, mas viu de perto. Não sustentou, mas conhece alguém que sustentou.
Existe um fenômeno claro ali: o da autoridade por proximidade. A pessoa cruza com alguém conhecido, tira uma conclusão precipitada sobre si mesma e decide que já pode ocupar o mesmo lugar simbólico. Como se bastasse observar o palco de longe para achar que entende o espetáculo inteiro. É o efeito “vi de perto, então sei fazer”. Muito comum. Muito aceito. Muito perigoso.
Quando isso se soma ao desligamento de um cargo relevante, o roteiro fica ainda mais previsível. O cargo vai embora, mas a pose fica. O crachá some, mas o discurso permanece intacto. Não há pausa, não há elaboração, não há explicação. Só a troca rápida de identidade. Ontem executivo. Hoje mentor. Ontem decisor. Hoje conselheiro. Ontem dentro da estrutura. Hoje ensinando como a estrutura deveria funcionar.
Não é sobre recomeçar. Recomeçar é legítimo. É sobre pular etapas.
Reputação não aceita atalho. Ela exige coerência narrativa. Quando alguém sai de cena sem explicar o contexto e reaparece ocupando um lugar de autoridade moral ou estratégica, cria-se um vácuo. E vácuo, no mundo da reputação, nunca fica vazio. Ele é preenchido por desconfiança.
Alphaville favorece esse tipo de teatro porque é um ambiente onde todo mundo parece ocupado demais para perguntar o básico. O cenário ajuda. O vocabulário ajuda. A estética ajuda. E, muitas vezes, o mercado aceita. Até o dia em que não aceita mais.
O Google, por exemplo, não aceita.
Porque enquanto o discurso avança, o histórico continua lá. Crises mal resolvidas, silêncios estratégicos, passagens curtas demais por cargos longos demais, resultados nunca muito claros. Tudo isso não some porque alguém decidiu se apresentar como referência. Reputação não funciona por autoatribuição. Funciona por registro.
E aqui entra o ponto central: mentoria sem história não é mentoria. É encenação. É performance de autoridade. É alguém ensinando o caminho sem nunca mostrar a trilha que percorreu ou explicando por que precisou abandoná-la no meio.
Não é uma crítica à mentoria. É uma crítica à mentoria sem história.
Quando alguém se apresenta como mentor, a pergunta nunca deveria ser “qual é o discurso?”, mas “qual é o rastro?”. Que decisões essa pessoa sustentou quando o cenário virou? Que crises atravessou sem sumir? Que erros assumiu publicamente? Onde está o registro disso tudo?
O mercado corporativo brasileiro ainda confunde eloquência com competência. Confunde confiança com convicção. Confunde presença com autoridade. E Alphaville é, muitas vezes, o palco onde essa confusão acontece em alta velocidade, com café caro, frases prontas e pouca disposição para olhar o passado com honestidade.
Não é uma crítica ao bairro. É um alerta sobre o comportamento.
Porque, reputação não é o que você diz que virou depois que perdeu o cargo.
É o que sobra de você quando a função some, o crachá é devolvido e o discurso precisa se sustentar sozinho.
Autoridade real não precisa ser anunciada. Ela é reconhecida. Ela sobrevive à perda do cargo. Ela atravessa o tempo. E, principalmente, ela deixa registro.
No fim, reputação não é o que você vira depois que sai da empresa.
É o que sobra de você quando o cargo vai embora e ninguém mais está aplaudindo.
E isso, infelizmente, não se compra no café da esquina.
PODCAST

2. De que forma o ambiente de Alphaville favorece a performance sobre a entrega?
3. Qual é a importância do registro histórico na validação de mentorias e carreiras?
