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Afeto em fragmentos: a escrita sensível de Manoel Valente Figueiredo Neto transforma memória em movimento

Em um tempo marcado pela velocidade e pela superficialidade das relações, textos que convidam à pausa tornam-se raros. É nesse espaço de silêncio e densidade que se insere “Retrato afetivo fragmentado”, obra do jurista e jornalista Manoel Valente Figueiredo Neto. O texto não busca narrar uma história linear, mas provocar uma experiência: a de compreender o afeto como energia em trânsito.

Logo nas primeiras linhas, o autor rompe com a ideia tradicional de memória como registro fixo. “A memória não é fotografia, é faísca”, escreve. A metáfora sintetiza o tom do ensaio: o afeto não se deixa aprisionar em molduras, não cabe em descrições fechadas. Ele circula, altera atmosferas, modifica ritmos internos.

A escrita de Manoel parte de uma perspectiva pouco convencional para um jurista. Em vez da objetividade normativa, opta por uma linguagem simbólica, quase poética, que tensiona conceitos como presença e ausência. Ao afirmar que certas pessoas não deixam vazio quando partem, mas se tornam “campo elétrico”, o autor propõe uma leitura emocional da permanência: o que se vai não desaparece, transforma-se em impulso.

A amizade como combustão

O texto explora a amizade não como estabilidade, mas como ignição. Há uma crítica implícita à tentativa de organizar sentimentos em categorias previsíveis. Para o autor, relações intensas não fazem planos, fazem combustão. São feitas de arrancadas súbitas, mergulhos inesperados e movimentos que alteram a pressão das rotinas.

Essa ideia dialoga com uma percepção contemporânea das relações humanas: vínculos que não se medem pela frequência, mas pela intensidade. A ausência, nesse contexto, não é ausência plena; é a retirada de um motor que ainda deixa inércia. O que permanece são os gestos assimilados, as frases internalizadas, os hábitos que passam a compor a identidade de quem ficou.

Fragmentação como estética e verdade

O conceito central do texto, o “retrato afetivo fragmentado”, propõe uma inversão. Enquanto o retrato tradicional busca fixar traços e congelar instantes, o retrato afetivo aceita a quebra, o ruído e a sobreposição. Ele não organiza o vivido em sequência lógica; preserva-o em estilhaços luminosos.

Há, nesse ponto, uma aproximação com a estética contemporânea da memória: lembranças que surgem em flashes, detalhes imperfeitos que carregam mais verdade do que narrativas completas. O cristal quebrado continua refletindo, talvez até mais, justamente por suas fissuras.

Manoel Valente Figueiredo Neto

Presença que continua acontecendo

Um dos trechos mais impactantes do ensaio afirma que presença não é apenas estar, é continuar acontecendo. A frase sintetiza a proposta do autor: o afeto não se fixa, ressoa. Ele não posa para a fotografia; atravessa o tempo e instala-se como vibração.

Ao final, o texto não oferece conclusão fechada. Mantém a coerência com sua própria tese: a memória quase escapa, e é nesse quase que revela sua verdade, imperfeita, pulsante, humana.

“Retrato afetivo fragmentado” reafirma a capacidade da literatura ensaística de ampliar percepções e deslocar certezas. Mais do que descrever uma pessoa ou uma amizade, Manoel Valente Figueiredo Neto constrói uma reflexão sobre como o vivido permanece em nós, não como passado arquivado, mas como energia que continua a mover.

Em tempos de registros instantâneos e imagens descartáveis, o autor lembra que o que realmente marca não é o que se fixa, mas o que vibra. E talvez seja nessa vibração, feita de rachaduras luminosas, que a memória encontra sua forma mais verdadeira de existir.

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