Entre a rua e a esperança existe um corredor invisível de cuidado operado por milhares de voluntários anônimos. Silenciosamente, as igrejas brasileiras — evangélicas, católicas e de outras confissões — mantêm viva uma rede de proteção social que não aparece no orçamento público, mas aparece na vida de quem precisa. É hora de o poder público e a sociedade reconhecerem esse capital humano como infraestrutura viva de cuidado.
Quem percorre bairros vulneráveis sabe: por trás das ações de acolhimento, cursos gratuitos, doações de cestas, reforço escolar e acompanhamento psicológico, há método, gestão e resultado. São organizações com processos, prestação de contas e, sobretudo, um ativo que o Estado raramente consegue comprar — confiança. A comunidade confia na igreja da esquina. A mãe que teme o tráfico confia no voluntário que ensina o filho a tocar violino. Essa confiança é um patrimônio público invisível.
Mesmo assim, o potencial segue subaproveitado. Parte disso vem de um preconceito conceitual: confunde-se laicidade com laicismo. O Estado deve ser neutro, mas não cego. Neutralidade institucional não é rejeição às expressões de fé que produzem resultados sociais concretos. Outra parte vem da dificuldade operacional de diálogo: governos preferem licitações assépticas a parcerias criteriosas com quem já atua no território, conhece os nomes e sabe onde a dor mora.
Não se trata de pedir privilégios, mas de aplicar critérios. Igrejas sérias que desenvolvem projetos sociais devem ser tratadas como qualquer organização do terceiro setor: metas claras, transparência e avaliação de impacto. O dinheiro público deve remunerar serviço público — sem exigência religiosa —, e o contrato deve ter salvaguardas e controle externo. A boa fé já está habituada: “daí a César o que é de César e a Deus o que de Deus”.
O ganho é coletivo. As igrejas têm capilaridade e agilidade que o poder público dificilmente alcança. Estão nas periferias, nos horários em que o expediente oficial terminou. Identificam vulnerabilidades cedo e respondem com velocidade. Integrá-las de modo responsável amplia a escala do bem e reduz custos sociais.
Alguns caminhos práticos podem destravar esse potencial: chamadas públicas por impacto que premiem projetos com resultados comprovados; um cadastro nacional de iniciativas comunitárias com indicadores abertos à auditoria cidadã; formação e certificação contínua de voluntários em gestão, escuta qualificada e compliance; parcerias intersetoriais que unam igrejas, universidades e empresas em metas de saúde preventiva, reforço escolar e capacitação profissional; e a criação de um fundo de inovação social voltado a pilotos de alto impacto avaliados por critérios técnicos.
O Brasil já tem exemplos de excelência. Falta institucionalizar o diálogo. Construir pontes entre secretarias e projetos locais, entre academia e comunidades, entre filantropia e políticas públicas. Pontes entre quem precisa e quem pode ajudar.
Quando a fé se transforma em serviço, ela não divide; soma. O Estado, quando reconhece esse valor com critérios, não abdica da laicidade; afirma-a. A boa política não é a que evita a sociedade civil, mas a que a mobiliza.
Nas favelas, nos rincões e nas pequenas cidades, há um exército de voluntários sem holofotes, treinados pela convivência e movidos pela convicção de que ninguém deve ser deixado para trás. Valorizar esse trabalho é política pública inteligente — e humanidade em ação.
