EDUARDO MOURA
TIRADENTES, MG (FOLHAPRESS) – Leonardo Lacca lamenta muito que David Lynch não tenha visto a perna cabeluda de Kleber Mendonça Filho. “Eu acho que ele ia amar. ‘The Hairy Leg’, sabe?”, diz o diretor assistente e preparador de elenco de “O Agente Secreto”, à reportagem, durante a 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
Lacca evoca o americano autor de “Twin Peaks”, morto em janeiro do ano passado, para falar de entendimento.
O filme de Mendonça Filho reviveu uma lenda urbana dos anos 1970 de uma “perna cabeluda” dona de si, que andava pela região de Recife aterrorizando a população. Foi um fenômeno de cultura popular que virou crônica policial, literatura de cordel e marchinha de Carnaval. Um exemplo de história local que é mostrada ao mundo.
Um brasileiro não necessariamente precisa de uma pesquisa prévia para se situar na história de um agente do FBI que se junta a um xerife do condado para investigar a morte de uma rainha do baile de uma “high school” -conceitos profundamente americanos que o cinema e a televisão foram responsáveis por propagar.
“Você vê um filme de adolescente americano, tem aquela coisa de… Como é? Fraternidade [universitária]? A gente não tem isso aqui, mas a gente assistiu e começou a entender o que é”, diz.
Um americano que se depara com a perna cabeluda recifense pode até não entender, num primeiro contato, aquilo que vê, “mas começa a pesquisar sobre aquilo e entende a partir do que é mostrado”, afirma Lacca. “Essa questão do entendimento é muito interessante.”
Esse tal entendimento tem a ver com “soft power”, outro estrangeirismo que não precisa de tradução e que é um dos vários transbordamentos que a campanha do Oscar traz para o Brasil.
“Quando você é visto, você existe”, diz. “Você começa a existir mais. Então, Recife começa a existir mais. Esse casting, essas pessoas começam a existir mais. Uma figura como dona Tânia [Maria] nem se fala, né?”
Tânia Maria, atriz novata de 78 anos, interpreta dona Sebastiana, a síndica do edifício que abriga “refugiados”, tanto da ditadura quanto da sociedade da época, inclusive o personagem de Wagner Moura.
Por isso, a indicação ao Oscar na categoria de melhor direção de elenco -inédita até esta edição-, pelo trabalho comandado por Gabriel Domingues, tem um gostinho especial para a equipe.
“O filme de Kleber é composto por uma série de áreas que se complementam. A gente precisa muito da direção de arte, do figurino, da trilha, tudo. Mas a minha sensação é que o elenco vem em primeiro plano, como essência e importância para contar a história”, diz Lacca.
“É um elenco muito diverso. Eu gosto de pensar que é a representação do povo brasileiro, sabe? Muitos corpos e origens distintas. São figuras dramáticas que eles [americanos e os membros da Academia] não estavam muito acostumados a ver.”
Ele diz que tem percebido muita gente da indústria americana feliz com essa tendência do cinema mundial, entre eles o brasileiro, ganhando cada vez mais espaço no Oscar. “E ao mesmo tempo a gente vê as resistências”, diz.
“A gente tem muitos lugares a ocupar. É muito massa que o brasileiro vá mais à sala de cinema, que a gente possa fazer mais filmes, ter mais investimento, mais reconhecimento e mais domínio sobre nossas narrativas.”
A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood indicou o brasileiro “O Agente Secreto” ao Oscar de melhor filme. É a segunda vez que um longa nacional chega à principal categoria da premiação -isso nunca havia acontecido até o ano passado, quando “Ainda Estou Aqui” recebeu essa mesma nomeação.
O filme de Kleber Mendonça Filho também foi indicado às categorias de melhor direção de elenco, melhor filme internacional e melhor ator, pelo papel de Wagner Moura.
