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30 anos depois: o que ainda precisamos aprender com os acidentes aéreos no Brasil

Por Sandra Assali (*)

Em 2026, completamos 30 anos de um dos episódios mais marcantes da história da aviação brasileira: o acidente do voo TAM 402. Para muitos, trata-se de um fato do passado. Para mim, e para tantas famílias que viveram essa tragédia, trata-se de um ponto de virada — um marco que revelou, de forma dura e definitiva, o quanto o Brasil estava despreparado para lidar não apenas com o acidente em si, mas com tudo o que vem depois dele.

Naquele momento, não havia protocolos claros, não havia assistência estruturada às famílias e, principalmente, não havia informação. O que existia era o silêncio, a desorganização e o desamparo em um dos momentos mais dolorosos que uma família pode enfrentar.

Três décadas depois, é inegável que evoluímos. A criação da Norma IAC 200-1001, que tornou obrigatória a assistência às famílias de vítimas de acidentes aéreos, foi um avanço histórico. Hoje, há uma compreensão maior sobre a importância do acolhimento, da comunicação e do suporte psicológico. O setor amadureceu, os processos se estruturaram e a segurança operacional evoluiu de forma consistente.

Mas os números nos lembram, com insistência, que ainda não chegamos onde deveríamos.

Em 2025, o Brasil registrou 152 acidentes aeronáuticos, com 61 mortes. No ano anterior, foram 175 acidentes e 152 vidas perdidas. São números que não podem ser relativizados. Eles nos mostram que, embora a aviação seja um dos meios de transporte mais seguros do mundo, os acidentes continuam acontecendo — e continuam impactando famílias, comunidades e toda a sociedade.

Talvez o maior erro que possamos cometer seja tratar esses episódios como exceções. Eles não são.

Quando analisamos os dados mais recentes, vemos comportamentos que exigem atenção específica, como o aumento expressivo das ocorrências envolvendo helicópteros e a recorrência de acidentes na aviação agrícola. São segmentos que crescem, se diversificam e ganham relevância econômica, mas que também carregam desafios operacionais importantes. E é exatamente nesse ponto que a discussão precisa evoluir.

Segurança aérea não é apenas uma questão técnica. Não é apenas responsabilidade das companhias, dos fabricantes ou dos órgãos reguladores. Segurança aérea é, antes de tudo, uma responsabilidade coletiva. É sobre cultura. É sobre disciplina. É sobre não aceitar o “normal” quando o normal ainda é arriscado.

Mas há um outro aspecto que, ao longo desses 30 anos, aprendi a considerar tão importante quanto a prevenção: o cuidado com as pessoas.

Quando um acidente acontece, o impacto não termina no local da tragédia. Ele se estende para dentro das famílias, das casas, das vidas que precisam seguir depois da perda. E é nesse momento que a diferença entre um sistema preparado e um sistema despreparado se torna evidente.

Hoje, ainda vemos famílias que não sabem quais são seus direitos. Que desconhecem a existência de um seguro obrigatório. Que não sabem como acessar informações oficiais. Que se perdem entre processos técnicos, jurídicos e emocionais, muitas vezes ao mesmo tempo.

Isso não deveria acontecer. Informação também é segurança.

Saber o que fazer, a quem recorrer e quais direitos exigir pode não evitar um acidente, mas pode evitar que o sofrimento seja ainda maior. Pode trazer dignidade a um momento que, por natureza, já é devastador.

Por isso, quando falamos em evolução da aviação, precisamos olhar para dois caminhos que caminham juntos: a prevenção de acidentes e o cuidado com as vítimas. Um não substitui o outro. E ambos ainda precisam avançar.

Ao longo das discussões mais recentes que conduzimos na ABRAPAVAA, três pontos ficaram claros para os próximos anos. O primeiro é a necessidade de atualizar a Norma IAC 200-1001, que completa mais de duas décadas e precisa refletir a realidade atual da aviação e das famílias. O segundo é o olhar mais atento para segmentos como a aviação agrícola, que apresenta um histórico consistente de ocorrências e exige ações mais estruturadas de fiscalização e capacitação. E o terceiro é a manutenção da segurança como pauta permanente, especialmente na aviação geral, onde os números continuam preocupantes.

Esses não são desafios simples. Mas são caminhos possíveis. E, talvez mais importante, são caminhos necessários.

Trinta anos depois do voo TAM 402, a maior homenagem que podemos fazer às vítimas não é apenas lembrar o que aconteceu. É garantir que continuemos avançando. Avançando na segurança. Avançando na informação. Avançando no cuidado. Porque, no fim, a aviação não é feita apenas de aeronaves, tecnologia e operações. Ela é feita de pessoas.

E são elas que precisam estar sempre no centro de tudo.

(*) Sandra Assali é bacharel em Direito, mediadora de conflitos e referência nacional em gerenciamento de crise e assistência humanizada. É fundadora e presidente da ABRAPAVAA – Associação Brasileira de Parentes e Amigos de Vítimas de Acidentes Aéreos.

Rebeca Santana
Rebeca Santana
Jornalista com 17 anos de experiência em comunicação institucional e assessoria de imprensa. Atua na cobertura de temas ligados à educação, empreendedorismo e posicionamento estratégico, com foco em liderança, governança e impacto institucional.

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